DIA MUNDIAL DO TEATRO 2020

Filomena Oliveira e Miguel Real
27 de Março de 2020

 

Cada um por si ou os dois em conjunto, temos escrito teatro de temática histórica e de resgate de momentos culturais importantes na história da cultura portuguesa. Ao mesmo tempo, escrevemos peças que possuem uma outra dimensão – são peças de atualidade e de intervenção social –, como Europa, Europa!, uma peça sobre os imigrantes e refugiados chegados à Europa..

Em 2010, a pedido da Sociedade Portuguesa de Autores, para as comemorações do Dia Mundial do Teatro, escrevemos estes 10 pontos que consideramos atuais.

10 PONTOS SOBRE O TEATRO ACTUAL

Caros companheiros,

  1. Neste dia Mundial do Teatro, em plena crise de um sistema global profundamente injusto e alienante, porventura prenúncio de uma nova era civilizacional, o teatro deve assumir a sua eterna função de iluminação cultural da sociedade, criando uma realidade estética que desmascare tanto o terrorismo dos poderosos quanto o estado de ignorância dos povos;
  2. Nunca o teatro foi neutro e, hoje, mais do que nunca, numa sociedade técnico-científica dominada pela omnipotência do dinheiro e a idolatria do poder, deve lutar contra o indiferentismo social, a política dos campos de futebol e dos serões televisivos contaminados pela imbecilidade, afirmar-se contra o populismo que nivela a arte pelos instintos bárbaros das multidões, rebaixando-a a uma mera mercadoria para consumo acéfalo, uma arte medíocre, sem exigência da crítica reflexiva que torna o homem verdadeiramente humano;
  3. O teatro, sabemo-lo de há muito, não salva o mundo, mas sem o teatro, os actores, os encenadores, os autores, os dramaturgos, os técnicos de cena, os espectadores, o mundo não se salvará. A responsabilidade que cai hoje sobre a arte teatral não é maior do que a de outros tempos, os tempos do analfabetismo cultural, da censura e da prisão política. Mas é diferente. Hoje luta-se contra a imbecilização geral da sociedade e a violência dos quadros legais que servem os interesses do Estado em nítido desprezo pelo sector cultural. Hoje, encontrar um político culto, que encare a arte como uma respiração vital da sociedade, é uma raridade. A sociedade atual, na qual escrevemos, representamos e encenamos, arrancou a alma ao homem, desespiritualizou-o, fez do homem um consumidor eufórico, asfixiado em objectos que o não deixam respirar, isto é, não o deixam ver-se nu ao espelho;
  4. É esta hoje a grande tarefa do teatro: pôr o homem nu frente a si próprio, evidenciar o monstro em que se tornou e, como remédio, desafiá-lo a regressar à sua humanidade;
  5. O teatro hoje deve desmistificar criticamente os bezerros de ouro da nossa sociedade: o dinheiro e o poder; a fatuidade das elites e o seu desprezo pela população carecida; a arrogância das cidades fomentando a desertificação do interior; a soberba dos instalados contra os excluídos e das mentes nacionalistas cristalizadas contra a miscigenação das culturas; a vaidade e a avareza dos egos iluminados contra a partilha do conhecimento;
  6. O teatro hoje não deve ser elitista, reduzido a minorias esclarecidas, nem demagogo, obediente a cartilhas consumistas de multidões acríticas; deve ambicionar fazer parte da imensa minoria que, mesmo não sabendo para onde ruma o século XXI, possui a lúcida certeza de que o caminho encetado não é o melhor e muito menos o desejado;
  7. Montar um espectáculo, hoje, é desafiar o futuro, inventar um futuro apetecido, apontar um caminho que, mais do que uma recta, se constitui como um labirinto. É preciso lutar para que essa sociedade desejada que cada espectáculo evidencia, desmontando as deformidades do presente, combata e evite uma previsível sociedade securitária para que os actuais rumos da Europa apontam, na qual o cidadão, ameaçado e amedrontado pela escassez de recursos naturais, troque a liberdade e a criatividade, fundamentos da arte, pelo conforto e pela segurança;
  8. O Teatro, por si, isolado, não corrige o mundo, mas sem ele o mundo não será corrigido do bando de malfeitorias que o têm desvirtuado – a violência impune contra os mais fracos; a injustiça contra os humildes; a criação de máquinas de propaganda que, passando por espectáculos, visam a imbecilização coletiva; o culto dos deuses da ignorância e do idiotismo; a degeneração dos costumes tradicionais dos povos, submersos num mundo racional e frio, tão gelado como um iceberg, mas sem a bela alvura deste; a leitura do passado às avessas, de modo a legitimar forças pérfidas do presente, transformando o homem num exclusivo funcionário nascido, vivido e falecido entre um universo técnico que lhe asfixia a criatividade, identificada com exotismo individual;
  9. O Teatro, para o ser e realizar-se, deve retomar a sua pulsão originária, assumindo a audácia de se levantar contra as vaidades enfatuadas, a ousadia de dizer não aos vendilhões da banha da cobra dos espectáculos ocos, que fazem cócegas na alma, consolam o espectador, mas não lhe revitalizam o espírito crítico reflexivo;
  10. Aprendamos com os grandes vultos do teatro português de ontem e de hoje, assumindo que o teatro ou é agitação de consciências e aguilhão contra a estupidez e a malevolência, ou não é arte; será show, espectáculo, será drama, comédia, tragédia, mas falho de sentido cultural ou social.